quinta-feira, 13 de maio de 2010

' Soja Plus: desmatamento continua '




No último mês, associações de produtores e da indústria de soja tiraram da manga um novo programa de certificação do produto. Batizada de Soja Plus, a novidade chega às vésperas de a Moratória da Soja completar seus quatro anos, e põe na mesa outros critérios para uma produção sustentável. Na lista de critérios, o desmatamento zero – foco central da moratória – ficou de fora.

Em nota, as organizações da sociedade civil integrantes do Grupo de Trabalho da Moratória da Soja (GTS) – entre elas o Greenpeace – esclarecem as diferenças entre essas iniciativas. Abaixo, uma entrevista com Raquel Carvalho, da Campanha Amazônia do Greenpeace.


Qual a diferença entre a Moratória da Soja e o Programa Soja Plus?
A moratória é um acordo da indústria de não aquisição de soja oriunda de áreas desmatadas a partir de julho de 2006. É um compromisso assinado para segurar a expansão da soja e, consequentemente, do desmatamento. Já o Soja Plus é um programa de certificação.

Do ponto de vista operacional, a principal diferença é que o Soja Plus não incorpora o conceito do desmatamento zero, que é o grande trunfo da moratória. Ela é um acordo provisório, não é solução definitiva. É uma forma de dar um “respiro” enquanto a Amazônia não tiver mecanismos de governança que permitam um controle da expansão da soja sobre áreas de floresta.

Enquanto isso, o Soja Plus trabalha com a legalidade. Os critérios para certificação atendem à legislação: se a produção está dentro da lei, a soja é certificada.

Isso já não é suficiente?
Hoje, ainda não. Se a legislação fosse suficiente, não teríamos os problemas de desmatamento no campo. Apesar de a legislação ser boa, ainda não temos a governança necessária para que ela seja cumprida. Por conta disso, na moratória, a principal demanda em termos de governança é o registro das propriedades no Cadastro Rural Ambiental (CAR).

Por quê?
Quando o proprietário registra a fazenda, os limites dessa propriedade passam a constar de um sistema de acesso público. A partir dos dados de desmatamento divulgados anualmente, temos como cruzá-los com esses registros e identificar os responsáveis pelo desmatamento. Sem o cadastro, não temos como responsabilizar nenhum proprietário, pois não dá para saber os limites da propriedade.

Por que a moratória estipulou como critério o desmatamento zero?
No mercado consumidor europeu a demanda por isso é grande, já que o desmatamento da Amazônia é o principal fator que transforma o Brasil no quarto maior inimigo do clima do planeta. A moratória existe por demanda de mercado. Foi ele que pressionou as indústrias, avisando: ou vocês adequam a produção para que não haja mais desmatamento ou a gente não adquire mais seu produto. O mercado consumidor tem se tornado mais exigente no sentido de saber a origem do produto e os impactos de sua produção. A resposta da indústria da soja mostra que o setor decidiu assumir sua responsabilidade corporativa, e isso é ótimo, tanto para o setor da soja quanto para os consumidores preocupados com seu papel nas mudanças climáticas.

O conceito do desmatamento zero já não é especifico de ONGs ambientalistas. O próprio setor produtivo hoje fala que é possível produzir sem desmatar. Se os produtores afirmam isso, seria esperado que um programa de certificação conseguisse dar esse passo adiante, incorporando o desmatamento zero como critério.

Quais os problemas no sistema de certificação do Soja Plus?
Os pais do programa são a indústria e os produtores de soja. Os critérios para a certificação foram definidos por eles e eles mesmos fariam a verificação do cumprimento desses critérios.

Idealmente, os critérios precisam ser construídos por atores de diversos setores, e a certificação tem que ser um processo independente. Tem que haver uma certificadora de fora que analise o processo de produção e atribua esse selo à atividade. Tem que ter independência para avaliar o que está sendo feito. O Soja Plus acaba sendo uma programa autorregulatório, pois tem a indústria e os produtores certificando sua própria produção e comercialização.

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